Número de mulheres pesquisadoras cresce, mas dificuldades permanecem

Texto publicado originalmente pelo jornal Comunicação. Texto de Heloiza Silva e Milena Aíssa. Edição de Pedro Macedo

Um estudo feito pela maior editora de literatura médica e científica do mundo, a mulheres pesquisa 2Elsevier, afirma que o número de pesquisadoras mulheres cresceu em 11% entre os anos de 2011 e 2015. Embora o resultado seja positivo, algumas mulheres ainda afirmam sofrer com o machismo e a desvalorização do seu trabalho.

Máira Nunes é doutora em Comunicação e Linguagens pela Universidade Tuiuti e um dos muitos casos de mulheres que convivem com o machismo no meio científico. A pesquisadora diz já ter sofrido com assédio, desmerecimento intelectual e desvalorização pela sua atuação na área de Gênero e Sexualidade. “A situação mais constrangedora que vivi foi quando participei de uma mesa sobre movimentos sociais”, comenta Máira. Além de ter sido desvalorizada, ela conta que um dos palestrantes não lhe dirigiu a palavra durante o evento e “até sentou de costas para mim”.

Para que situações assim fiquem no passado, as pesquisadoras Victória Almeida e Morena Abdala, criaram o SophiaData, uma plataforma desenvolvida para promover a ciência feita por mulheres através do modo colaborativo. Lançado no dia 8 de março no Museu Paranaense, o objetivo é impulsionar, através do meio tecnológico, a ligação entre as mulheres e o mercado de trabalho.

Para Almeida, ainda que mulheres cheguem em cargos de liderança, isso não garante uma solução ao machismo. E mesmo nas situações em que assumem a direção de um setor ou departamento, “quem manda nas reuniões de colegiado do Instituto em que eu estudo são os professores homens”, explica a pesquisadora. “Eles chegam a gritar com as professoras e dizer que elas não sabem o que estão falando”, finaliza.

O SophiaData busca reunir o melhor de outros meios acadêmicos virtuais, usados para a propagação e divulgação de trabalhos científicos. Abdala acredita que o principal problema é que as pessoas não divulgam a ciência feita por mulheres. Isso só reforça o protagonismo dos homens no meio acadêmico, mesmo com “a maioria das pesquisas sendo realizadas por mulheres”, de acordo com ela.

 

A ideia do nome da plataforma vem da junção das palavras Sophia, que significa sabedoria, e Data, que está relacionada com a palavra dados (Foto por Heloiza Silva)

O site está na primeira fase de cadastramento, em que devem ser disponibilizados nome e e-mail. A próxima etapa será a parte aberta, que vai funcionar como um blog, com conteúdo feito por mulheres parceiras. “O blog vai ser uma maneira de divulgar, não só para as pessoas iniciadas na vida acadêmica, mas também para quem tem muito interesse e não sabe como funciona e quais são as questões mais urgentes da área”, conta Almeida. A proposta é que a parte direcionada às pesquisadoras sirva para divulgação de seus currículos e artigos em uma formatação mais simples do que as encontradas em jornais acadêmicos.

Nós também podemos

Entre os anos 1996 e 2000, as mulheres representavam 38% do número total de pesquisadores no país, de acordo com um estudo publicado em 2017 pela Elsevier. Já entre 2011 a 2015, os dados mostram que o número de pesquisadoras cresceu para 49%. Durante o intervalo das análises, em 2005, foi lançado o Programa Mulher e Ciência. Seu objetivo principal é estimular a produção científica e a reflexão sobre as relações de gênero, além de promover a participação feminina na carreira acadêmica.

A pesquisadora e servidora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Laura Wottrich, acredita que seu papel como docente é fortalecer a capacidade das mulheres de ocuparem os espaços que quiserem, entender o tamanho dos obstáculos, falar abertamente sobre eles e pensar, de maneira coletiva, formas de retirá-los do caminho. “É preciso capacitar as mulheres tecnicamente na atividade profissional que escolheram se especializar”, diz Wottrich.

Dentro das áreas de conhecimento, a medicina, a agricultura e as ciências biológicas contabilizam o maior número de pesquisadoras, enquanto economia e finanças são as mais impopulares entre o público feminino. De 2011 a 2015, dos 82.694 biólogos, cerca de 49% eram mulheres, segundo a Elsevier.

Thaysa Krüger descobriu sete espécies novas de joaninhas (Foto por Heloiza Silva)

Thaysa Krüger está entre essa porcentagem. A bióloga pesquisou sobre joaninhas no mestrado e pôde notar a preponderância feminina. Ela conta que, por ter sido orientada por uma mulher, não sentiu diferença dentro do laboratório. “Hoje a mulher está conquistando seu espaço por toda a universidade”, conta Krüger. “Nós também podemos ser cientistas e pesquisadoras, não é só coisa de homem”, diz a pesquisadora, que acredita na capacidade das mulheres de serem o que quiserem.

Desde 1957 não se tinha mais nenhum trabalho sobre o grupo de joaninhas pesquisado pela bióloga Thaysa Krüger (Foto por Heloiza Silva)

Camila Marques, pesquisadora pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), também não sofreu com o machismo durante o desenvolvimento da tese de doutorado. O tema do seu trabalho foi as relações de desigualdade de classe e de gêneros em produtos audiovisuais.

No caso de Camila, as diferenças começaram a surgir ao relatar o seu objeto de estudo para as pessoas. “A dificuldade que mais sinto é o olhar dos outros, como se o que eu pesquiso não fosse relevante”, afirma Marques. “Afinal a aparência, a moda, as roupas, os programas de entretenimento na televisão, são voltados para o público feminino e por isso não teriam importância teórica, empírica e científica”, conta.

Cada vez mais as mulheres buscam métodos a fim de colocar um ponto final na desigualdade de gênero, violência simbólica, desqualificação intelectual e assédios no ambiente acadêmico. A Universidade de São Paulo (USP), por exemplo, conta com um escritório de mulheres a fim de pensar em iniciativas que desenvolvam o tema das relações de gênero, em conjunto com estudantes, professores e funcionários.

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